O que resta

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O chato de ser doido eh quando a loucura te pega.

Desta vez foi comigo, e ca estou, no metro da Paris, fazendo sei lah o que.

a) Esperando?

b) Empurrando com a barriga?

c) Gastando o dinheiro que nao tenho?

d) Todas as acima?

Mas hoje tomo uma decisao, uma das dezenas que preciso tomar ate o fim deste ano.

Eh, estou divagando hoje, eu sei. Mas porque nao? As vezes todo o ouvido precisa ser pinico de vez em quando…

Faco sempre listas na minha cabeca: pessoas que preciso ver, contatos a fazer, planos de viagens, o que tem na mala, o que preciso fazer…

As listas conseguem iniciar uma certa organizacao na minha mente e eu tento transpor isso pra minha vida. As vezes nao acontece, outras vezes quase acontece. Hoje minha lista eh a seguinte:

Viver comigo eh confiar no caos que ordena todas as coisas neste mundo.

Eh saber que o imprevisivel estara presente.

Em todos os segundos da existencia.

Eh jogar com isso, eh saber ganhar e saber perder,

com toda a mesma majestade.

Saber que felicidade eh fugaz e dor tambem,

sutis e fortes eternas presencas.

Conviver comigo eh saber que pode contar 100% comigo,

mas que tambem pode ser zero, nunca por mal,

apenas por extrema influencia externa.

Saber que me entrego sempre de verdade, e sempre.

Eh saber que as vezes ajudo sabendo que vou me arriscar

ou me dar mal por isso. Mas ajudo,

e por isso se deve ter cuidado com o que se pede.

Que sou por vezes dramatico e meloso,

e por vezes nao, nem um pouco.

Que posso ser duro e bravo,

que posso ficar extremamente puto e magoado.

Mas que soh dura o tempo de um momento.

Que um sorriso eh tudo de bom.

Que nunca ha o dia de amanha

por que ele sera/estara sempre amanha.

Mas existe o hoje.

O agora.

E o que resta?

Resta acima de tudo essa capacidade de ternura,

Essa intimidade perfeita com o silencio,

Resta essa voz intima pedindo perdao por tudo,

“Perdoai, eles nao tem culpa de ter nascido.”

Resta esse antigo respeito pela noite,

Esse falar baixo,

Essa mao que tateia antes de ter,

Esse medo de ferir tocando,

Essa forte mao de homem cheia de mansidao

para com tudo o que existe.

Resta essa imobilidade,

Essa ecomonia de jestos,

Essa inercia cada vez maior diante do infinito,

Essa gaguera infantil de quem quer babunciar o inexprimivel,

Essa irredutivel recusa a poesia nao vivida.

Resta essa comunhao com os sons,

Esse sentimento da materia em repouso.

Essa angustia da simultaneidade do tempo,

Essa lenta decomposicao poetica

Em busca de uma soh vida,

Uma soh morte,

Um soh Thiago.

Resta esse coracao queimando,

Como um cilio numa catedral em ruinas.

Essa tristesa diante do cotidiano,

Ou essa subita alegria ao ouvir na madrugada

passos de pernas sem memoria.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza,

Essa colera cega diante da injustica e do malentendido,

Essa imensa piedade de si mesmo,

Essa Imensa piedade de sua inutil poesia

E sua forca inutil.

Resta esse sentimento da infancia

subitamente desentranhado de pequenos absurdos,

Essa tola capacidade de rir a toa,

Esse ridiculo desejo de ser util,

E essa coragem de compremeter-se sem necessidade.

Resta essa distracao, essa disponibilidade, essa vaguesa

de quem sabe que tudo ja foi

Como sera e vir a ser.

E ao mesmo tempo esse desejo de servir,

Essa contemporaneidade com o amanha

dos que nao tem ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercivel

de sonhar e transfigurar a realidade,

Dentro dessa incapacidade de aceita-la tal como eh.

E essa visao ampla dos acontecimentos,

Essa impressionante e desnecessaria paciencia,

Essa memoria anterior de mundos inexistentes.

E esse ruido estatico.

E essa pequenina luz indecifravel

Que as vezes os poetas dao nome de esperanca.

Resta esta obstinacao em nao fugir do labirinto

Na busca desesperada de alguma porta,

Quem sabe inexstente.

E essa coragem indizivel diante do grande medo

E ao mesmo tempo esse terrivel medo

De renascer dentro da treva.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos,

De refletir sem olhar,

Sem curiosidade, sem historia.

Resta essa pobreza intrinseca,

Esse orgulho,

Essa vaidade de nao querer ser principe

Senao do seu reino.

Resta essa fidelidade a mulher e ao seu tormento,

Esse abondono sem remissao a sua voragem insaciavel.

Resta esse eterno morrer na cruz de seus bracos

E esse eterno ressicitar para ser recrucificado.

Resta esse dialogo cotidiano com a morte,

Esse fascinio pelo momento a vir.

Quando emocionada,

Ela vira me abrir a porta

Como uma velha amante.

Sem saber

Que eh a minha mais nova namorada

Gostaria de ter criado esta ultima parte do texto, mas foi o Vinicius, aquele de Moraes.

A diferenca entre quem sabe e quem tenta.

Grande homem aquele que consegue falar o que tudo mundo pode sentir.

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