
Bom, nao preciso dizer que ja estou em Bangkok.
…
Na verdade preciso.
Depois que paguei minhas contas, fiquei bem mais leve, o rio ja tinha baixado a um nivel que comecara a ficar perigoso, pois nao se sabe se ha um galho, pedra, ou tronco no fundo que logo sera raso.
Achei que tava na hora, 24 dias depois de chegar, avisei minha “familia” que iria na manha seguinte.
Eh engracado essa situacao pois o tempo e a amorosidade do local realmente aproximara estas pessoas de algo que eu poderia chamar de familia. Eles simplesmente abriram todas as portas para mim.
E eu entrei por todas elas. Pela janela inclusive, como quando eu fui no mercado com a avo ou joguei na cara de pau a intensao de filmar os familiares de Noi em sua vila, contando-me historias. Essa foi realmente entrar-pela-janela-e-deitar-no-sofa.
Na proxima vez que for ate lah, pretendo ficar uma semana ou mais. Sozinho. O unico farang de toda a ilha.

Sua mulher, Bah, carinhosissima, ficava me dizendo “mas voce vai depois de amanha, neh?”, outros me diziam “cansou de nadar?” ou “quando voce volta?”
Deu sim um apertozinho, porisso mesmo resolvi sair de um dia para o outro.
Nao gosto de despedidas.
Mas confesso que me deu uma certa tristesa sair naquela manha sem me despedir de minha professorinha da boca suja.
Mas eles sempre tem uma maneira de me fazer feliz e, sem que eu soubesse me fizeram uma despedida relampago. Comemos arroz com carne (de lagarto, talvez rato? Te digo que nao sei, eles soh me disseram o que nao era…) , tomamos um belissimo café lao -que para o meu paladar eh a melhor semente de café do mundo-, e todos me entregaram fitas benzidas pelos monges, de algodao, como preza o costume tipico em quase todos os rituais.
Sai com os pulsos cheios de fitas “iguais mas diferentes” as fitinhas do Bonfim.
Foi um bom fim.

Sai silenciosamente daquele pais que mas me gusta. Com meus largos olhos e meu sorriso castanho intimei o guarda da fronteira a me dar 2 meses de visa soh porque eu sou brasileiro e consegui, a moca do raio x me ensinou o funcionamento da maquina e pimba!
Estava de volta a thailandia.
Cheguei faminto a rodoviaria de Ubon, fui direto comer um pho (sopa de macarrao) que estava delicioso, com direito a uma briga com a dona do estabelecimento por conta do cambio. Foi entao que, desistindo, usei pela primeira vez os ensinamentos de minha professora de lao.
“i-mah do-nih” falei em alto e bom tom.
E ela entendeu.
Peguei o onibus quase saindo, peguei meu livro cafona e entrei.
Tava tudo prontinho, ler ate dormir. Mas quem foi que falou que a luz funcionava?
Tedio tedio tedio, quem disse que seria facil dormir tampouco? Onibus apertado, parando por 2 min em dezenas de lugares, ou centenas.
Pareceu uma eternidade, mas enfim cheguei pela manha na barulhenta e suja Bangkok.

Uma das coisas boas de voltar era rever meu amigos daqui, somente estava sentido por nao ter me despedido de meu grande amigo panamenho, que deixara o pais a caminha das americas na semana anterior a minha volta.
Entrei em casa, a escuridao revalecia naquela manhazinha, era uma terca-feira, portanto o bar nao foi ate muito tarde, ou muito cedo. Das brumas e nas brumas vejo Sing que vem me dar um beijo e Yuval logo atras. Nos abracamos e entao eu noto um vulto dormindo no sofa.
Santi ainda estava aqui.
Confesso que fiquei tao feliz que o acordei. Ele, ainda meio bebado, me contou sua epopeia: da passagem que a mae comprara de um amigo e na verdade nao existia, dos mil dolares que tinha que pagar a imigracao por ter perdido seu passaporte e seu visto consequentemente, das 4 horas de interrogatorio por nao possuir o visto no passaporte novo, dos mil dolares para a imigracao que lhe roubaram enquanto dormia… isso em 4 dias…
Toca o telefone, eh seu pai lhe avisando que conseguira outra passagem:
Bangkok / Hong-Kong / Los Angeles / Newark / Santiago de Panana
E para aquele mesmo dia, dali a 4 horas.
Ele pega suas coisas rapidamente, nos despedimos e ele se vai para encarar sua longa viagem.
Sento satisfeito para tomar meu café da manha e ja me chega a primeira bomba, Yuval me contando de um moleque que estava dando tanto trabalho nos ultimos dias que teria que ser convidado a se retirar da casa. Pra completar ele passou a noite toda fumando yaba, uma droga local que tem o mesmo estigma do crack no Brasil.
Minha cabeca ainda esta no Laos e em suas aguas quando subo as escadas a comeco a ouvir a gritaria vindo do quarto do moleque, de inicio acho que eh briga de casal ou ate um “sexo selvagem”, ate comecar a ouvir a quebradeira e ter que intervir.
Tentei conversar, juro que tentei, mas estava impossivel. Tive que pega-lo e bota-lo pra fora do predio, que enfurecido ameacou tudo e todos.
“Vem! Me bate! Faca o meu dia! Eu vou me vingar, vou quebrar essa porra dessa janela! Vou chamar a policia pra este local pois eh tudo ilegal aqui, aposto que todo mundo aqui tem droga escondida! Vem, vem, me bata! Faca o meu dia!’
E la vou eu tentar falar com ele de novo. Mas dessa vez ele pega um pedaco de madeira e me ameaca. Aih passei a trata-lo com crianca.
“bate, eu disse, bata em mim pra voce ver. Nao eh isso o que quer?, mas se bater tem que ser pra matar pois senao EU vou mata-lo.”
A ameaca e a maior das armas…
Ainda tive que imobiliza-lo mais duas vezes, para retirar o pedaco de pau e os tijolos que ele havia escondido em sua bolsa. Ele reamente queria quebrar a vidraca…
Parecia novela do seu Silvio…
Entro enfim em meu quarto, nem desfaco minha mala, jogo-a para um lado e caio para o outro, em minha cama.
Mas dormir pra que quando se tem uma barulhenta briga de casal no quarto ao lado? Meu vizinho anglo-australiano reatou com a ex-namorada maluca da qual ele estava fugindo fazia 6 semanas. Maluca era pouco, eh certo que a mistura ajudara bastante -thailandesa e muculmana- e a fina parede de madeira fazia com que eles “estivessem” em meu quarto, talvez em minha cama.
Liguei o som alto e dormi ouvindo a Gal gritando com uma gritaria de fundo.
Uhu.
Essa foi so a primeira briga deles que eu vira. E a situacao se repetia toda noite, como um filme ruim na sessao da tarde.
Cade o botao de desliga?
Eu me meto em tudo quanto eh briga aqui mas mulher maluca eu deixo para o respectivo marido.
Quando eu me cansei, la pelo setimo dia, perdi a diplomacia, o tato e o respeito pelo ingles e escurracei e menina. Ela ficou pianinho…
Bangkok mudou.
Ou foi eu?
Derrepente me lembrei do porque haver deixado Sao Paulo.
Na primeira oportunidade eu quis sair de novo. Comprei uma passagem de trem, me atrasei e tive que perseguir o trem por duas estacoes ate conseguir embarcar.
Motoqueiro bom, maluco, mas bom.
E aqui estou, na porta aberta do trem, fumando um cigarro as 10 da noite a caminho do sul.
Realmente nao sei o que me espera, mas sei o que deixei pra tras e isso faz-me sentir uma enorme tranquilidade…
bom mesmo eh se jogar no mundo.
